Who done it?


O Falcão Maltês
Março 21, 2007, 4:12 am
Arquivado em: Cinema, Romance policial

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O romance noir é feito para o cinema. É só dar uma ajeitadinha que o roteiro está pronto, sem maiores esforços. Não por nada, escritores do gênero fizeram carreira como roteiristas de Hollywood. Raymond Chandler é um belo exemplo.

Que o romance noir é feito para o cinema eu sei, mas na minha monografia coloquei a afirmação contundente na boca do cineasta gaúcho Jorge Furtado. Agora, pensando bem, eu poderia ilustrar isso muito fácil apenas escolhendo uma cena de Relíquia Macabra, filme de 1941 cujo título idiota no Brasil mascara o fato de ser uma adaptação de O Falcão Maltês, romance célebre do americano Dashiell Hammett. Para quem não sabe, o escritor é o pioneiro do romance noir, que quebrou a tradição do romance policial clássico ao estilo Agatha Christie e Arthur Conan Doyle.

O longa-metragem é igualmente célebre. Na lista dos 250 melhores do site IMDB, está na 58ª posição, com nota 8,4. Em Relíquia Macabra, Humphrey Bogart, estrela de Casablanca, consagrou o personagem Samuel Spade, detetive que consta na maioria dos livros de Hammett.

Já eu, confesso, fiquei um pouco decepcionada – com o livro e o filme. Tentei abandonar um pouco as minhas restrições ao romance noir mas não adiantou muito. A história toda circunda uma milionária relíquia a que todos perseguem, o tal Falcão Maltês. Muitas mortes e reviravoltas depois (não tô entregando nada! é romance policial, o que se espera??) , o enredo se encaminha para algumas surpresas. Todos os romances policiais têm essa fórmula, ok, o que os difere é o “molho”, seja pela ação, pelo mistério e/ou por serem muito inventivos.

Em O Falcão Maltês, foram poucos os momentos em que a história em si me envolveu como de costume. Mas acredito que seja exatamente o que faz com que o noir seja mais cinematográfico que me irritou profundamente – esse “jeito roteiro de ser”. Foi a chave do meu trabalho acadêmico: explicar por que o policial clássico não funciona nas telonas. Idéias, pensamentos, sentimentos, teorias não são VISUAIS. Há palavras que não servem para um roteiro, tais como sente e pensa. Como se expressa com imagens essas palavras? Não tem como. Já TUDO no romance noir é filmável. Vou usar um trecho do início do livro para exemplificar:

Spade ergueu-se e curvou-se em cumprimento, apontando com a mão de dedos grossos a cadeira de braços, feita de carvalho, ao lado de sua escrivaninha. A moça não tinha menos de um metro e oitenta de altura. A rampa íngreme e arredondada dos seus ombros dava ao seu corpo o feitio quase de um cone – a largura igual à profundidade – e impedia que seu casaco cinzento recém-passado caísse muito bem nela.
A srta. Wonderly disse, num sussurro:
– Obrigada – suavemente, como antes, e sentou-se na beirada do assento de madeira da cadeira.
Spade afundou na sua cadeira giratória, de um quarto de volta para se pôr de frente para ela, sorriu educadamente. Ele sorria sem separar os lábios. Todos os vês de sua
cara ficaram mais compridos.

E aí? Perceberam como tudo é visual? Pois é, ele não te deixa um furo. Não tem escolha para você, leitor, não dá pra imaginar um Spade diferente. E a mulher tem mais de um e oitenta. E a mesa é de carvalho. E todos os vês na cara de Spade ficam mais compridos quando ele sorri sem separar os lábios. UFA.

Não por nada, tudo que John Huston, diretor e roteirista de Relíquia Macabra, precisou fazer foi editar o livro para se adaptar às pouco menos de duas horas de filme. Eu notei: todos os diálogos, exceto um ou dois, estão no livro. Tudo é igualzinho. Ele não precisou mexer em nada, o que é algo tão difícil em se tratando de uma adaptação literária que esse é um caso raro. Para levar uma obra da literatura para o cinema muitas vezes são necessárias diversas concessões que chegam a deformar a obra original.

Eu entendo, contudo, como esse filme foi importante para a época em que foi produzido. Foi o pioneiro do cinema noir e consagrou um astro como Bogart. Embora este seja outro ponto a ser discutido: na minha opinião, faltou ao Sam Spade de Bogart sarcasmo e leveza. A interpretação foi dura demais, Spade é bem mais divertido. Pelo menos é o que Hammett me deixou imaginar e o que eu prefiro continuar pensando.

Who done it? Dashiell Hammett e John Huston


2 Comentários até o momento
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Estava peneirando páginas que discorriam sobre romances policiais pelo Google e encontrei o seu blog. Estou compondo um atualmente e hora ou outra eu gosto de saber da opinião das pessoas sobre o gênero. É isso. Belo artigo.

Até.

Comment por Rui de Lucca

[...] que é uma vertente com todas as raízes na terra do Tio Sam. O Falcão Maltês, do Dashiell Hammet (já analisado neste blog), está lá em segundo. E é grande a presença do Raymond Chandler e de seu Philip [...]

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